Ao som do piano meu coração acelera, Ao som da melodia meus pés se movimentam, ao som dos acordes, eu danço…





Danço
como nunca dancei antes, é como se eu estivesse livre dos olhares, das
aflições, dos falsos elogios. Observo dentro de mim que o salão é
extenso, dá pra mim passar a noite toda em movimento, pois a melodia que
irradia é realmente incrível, nunca ouvida antes. Caio em si e vejo que
estou dentro do meu ser, naquele lugar que só nós conhecemos.
Nitidamente a luz encontra seu alvo, fui direcionado há um lugar dentro
de mim, vi setas me guiando até o final do corredor das emoções, logo
após desci a escada da renuncia, na primeira porta a esquerda de cor
Azul está meu esconderijo, notei que de lá que vinham as notas musicais
que faziam meus pés se movimentarem. Queria sair daquele lugar, mas não
podia, havia um propósito em tudo aquilo, naquele acontecimento. Meus
pés não me obedeciam, lutavam contra mim, estavam tomados pela força da
canção inaudita que vinha da porta de cor azul, da alma.
*****
Paro
enfrente a simples porta, minha mãos vão em direção a massa neta,
abro-a, ouvi atentamente que era o som de acordes de piano, que por
sinal eram belos, eu nunca tira ouvido acordes tão belos e tão
preciosos, me levavam rumo a sensação de pureza total. À medida em que
eu caminhava, em direção ao centro da sala onde estava um piano de cauda
com detalhes em ouro, meu coração pulsava, a emoção tomou conta, não
conseguia me conter, e voltava a dançar… Livremente dançar. Notas
limpas e reluzentes enchiam o ambiente.
*****

De
repente ouve uma pausa, meus pés pararam, a dança foi extinta por
minutos. Vi que atrás do piano havia um ser, um velhinho, de cabelos e
barbas brancas. Era Ele quem tocava dignamente o piano, com o controle
de minhas pernas, eu caminhei para perto do Ancião. Havia um partitura.
Não sabia se olhava para a partitura ou para o semblante amável do
velhinho, que sorria pra mim de forma angelical, a calma transcendia
dele e dominava meu interior, meu próprio ser. Por um instante olhei
para a partitura, notas musicas estavam coloridas com tinta dourada, uma
preciosidade, não me foi revelado quem foi o compositor da bela obra,
só sei que, de forma honrosa foi escrita. Estava anestesiado. Voltei os
meu olhos para o velhinho cheio de vigor, e de estrutura nobre, notei
que ele estava vestindo com um terno de Linho Fino, de branco
branquíssimo, sem costura. Sem me dar satisfação voltou a tocar. Meus
pés continuaram a dançar a canção, no ritmo da Liberdade. Dessa vez ele
tocava sem parar, toques delicados faziam com que minha alma esquecesse o
mundo lá fora. Deixando – me liberto de minhas mazelas interiores e
mágoas do passado, o perdão pairava sobre nós, e eu dançava…
Dançava…

*****

Eu
dancei, alegremente dancei a valsa da aurora. Quando fui ver, me perdi
em mim mesmo, em minha lembranças, em meus anseios, nos meus romances já
vividos. Percebi então que nada se comparava a melodia incessante que
tocava o Ancião de barba branca e de sorriso sublime. Ao som da canção,
eu perdi o controle, cai no chão, o som do piano mudou de tonalidade, os
dedos corriam em cima das teclas de forma veloz. O choro tomou conta de
minha face, de meus pequenos olhos, gota após gota caía sobre o chão
duro do meu interior, naquele exato momento eu era a criança, o inocente
ser pequeno que estava experimentando o livre arbítrio, meu interior
reconheceu na hora, meu choro, minha perdas. Ao som das notas veloz eu
estava sendo redimido, estava sendo mudado por completo. Então novamente
chorei… Como um desgraçado, me arrependi, ali não existia mais o meu
querer, o meu Eu estava submisso a vontade da melodia nobre, o ritmo
purificava meu interior, neutralizava minha trevas, meu rumores de
guerras. Não existia horas, nem mudança de tempo, tudo ocorreu no espaço
entre a divisão da alma e do espírito.

*****

Levantei
do chão aliviado, quando percebi, não existia mais lágrimas em meu
olhar, pois o Ansião tinha enxugado dos meu olhos todas as lágrimas.
Sorri. Caí em um sono profundo. Quando acordei, já não existia a sala de
porta azul, o som do piano havia se silenciado, meus pés imóveis já não
dançavam mais, os acordes já extintos pelo som turbulento da vida, das
circunstâncias. Estava no mundo real, no meu quarto, paralisado em minha
cadeira de rodas… Quem sabe um dia volto a dançar sobre a planície da
Eternidade, ao som do Piano eu dance novamente…

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